FENÔMENO TEIXEIRINHA: É POSSÍVEL?

>> 24 de mai. de 2008

Vamos fazer um exercício de reflexão: até meados do século XX, a música produzida no Rio Grande do Sul só tinha alcançado projeção nacional em três momentos. O primeiro, lá pelos idos de 1940, consagrou e imortalizou Lupicínio Rodrigues e seus sambas de “dor-de-cotovelo”. O segundo, também na década de 40, é marcado pela destacada atuação de Pedro Raymundo (célebre autor de Adeus, Mariana). Por fim, já na década de 1950, o Brasil conhece o grupo Os Bertussi, instrumentistas que se definiriam mais pelo viés do folclore e do erudito.

Eis que, em 1959, surge Teixeirinha. A história vocês já conhecem: o órfão que cresceu e venceu, cantando sua própria vida nos versos da imbatível Coração de luto. Os números divergem: há quem diga que Teixeirinha vendeu cerca de 25 milhões de discos; para Mary Terezinha, as cifras são maiores (80 milhões, diria ela no documentário “O Gaúcho Coração do Rio Grande”, exibido em 2006). Não importa. Indiscutivelmente, Vitor Mateus Teixeira foi (e continua sendo) o maior sucesso de vendagens da música no Rio Grande do Sul.

Mas o assunto aqui é outro. Com o sucesso de Teixeirinha, a música gaúcha ganhou uma projeção nacional jamais vista. O “Rei do Disco” – que surgiu como um fenômeno geograficamente isolado – logo fez escola, proporcionando a abertura do mercado para aqueles que quisessem seguir seu caminho. E não faltaram candidatos...

Em 1967, em pleno bafafá gerado pelo sucesso de Coração de luto (agora nos cinemas), surge um novo campeão de vendas “made in RS”. Estou falando do sempre saudoso “Gaúcho Seresteiro” José Mendes, que depois da explosão de Pára...Pedro, conseguiu se estabelecer como o segundo “cartaz” regional. Seus discos, gravados pela Copacabana, venderam cerca de 500 mil cópias. Houve um período em que Mendes quase alcançou Teixeirinha (e no cinema o filme Pára...Pedro seria o único a desbancar Coração de luto). Porém, em 1974, José Mendes teve sua carreira tragicamente interrompida por um acidente de automóvel. Com a morte do jovem cantor, Teixeirinha voltou a reinar absoluto no mercado musical.

Gildo de Freitas – teoricamente o maior rival do “Rei do Disco” – nunca chegou a alcançar vendagens astronômicas. Gildo era definitivamente mais contido. Não emplacou nenhum sucesso estrondoso como Coração de luto ou Pára...Pedro. Suas canções, quase sempre autobiográficas, falavam de assuntos variados e em geral muito restritos ao Rio Grande do Sul. Além disso, sua pouca disciplina e um quase desapego total à saúde e aos negócios, fez com que o “Trovador dos Pampas” não tivesse uma produção musical regular, o que é fundamental no campo artístico.


José Mendes, Gildo de Freitas e Jorge Camargo não conseguiram alcançar Teixeirinha nos anos 1960
Nos anos 1970, apesar do surgimento do “nativismo” (marcado pela criação da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana), os gaúchos seguem representados por Teixeirinha no cenário nacional. Ele é o único que consegue atravessar as décadas de 1960 e 1970 sem abalos significativos, produzindo quase sempre dois LPs por ano (em 1974, devido à crise do petróleo, o cantor só lançaria um disco). Neste período, surgem diversos nomes tentando alcançar o mesmo sucesso: em Santa Maria, Rodrigo (auto-intitulado “Gaúcho Rei dos Pampas”) se apresenta em rádios locais e até grava algumas músicas, mas é constantemente acusado de plagiar Teixeirinha; na capital, Jorge Camargo tenta fazer sucesso gravando composições do “Rei do Disco”, mas também não alcança grande êxito. Duplas no estilo “Teixeirinha-Mary” também aparecem: Nelson e Jeanette fazem uma carreira apagada; já Zezinho e Julita (apoiados por Teixeirinha) conseguem alguma fama, mas não saem das fronteiras do Rio Grande do Sul.

É só no início dos anos 1980 que surgem novos fenômenos. O primeiro se chama Gaúcho da Fronteira – que no início da carreira era chamado de “Teixeirinha da Fronteira” – e consegue a façanha de vender mais de 2 milhões de discos. A segunda é Berenice Azambuja, gaúcha de voz afinadíssima que seria consagrada em todo o país pela música “É disto que o velho gosta” (vendeu cerca de 1 milhão de cópias). Mas enganam-se redondamente os que acham que eles desbancaram Teixeirinha. Em 1984 – um ano antes de morrer, a propósito – o sempre surpreendente “Rei do Disco” ganharia mais um “Disco de Ouro” pelo estrondoso sucesso do LP “Quem é você agora...”, definindo claramente quem era – ainda! – o gaúcho campeão de vendas.

Zezinho & Julieta, Berenice Azambuja e Gaúcho da Fronteira fizeram relativo sucesso
Mas a morte de Teixeirinha, em 1985, marcaria o final da maior representação gaúcha no mercado fonográfico brasileiro. Infelizmente, os sucessos de Berenice Azambuja, Gaúcho da Fronteira e Moraezinho (que não chegou a ficar tão famoso como cantor, mas sim como compositor de Panela velha) não foram adiante. Os Serranos, grupo que despontou com grandes expectativas, também parou nas fronteiras do Rio Grande. Melhor sorte, tiveram a dupla Kleiton e Kledir (venderam aproximadamente 2 milhões de discos) e o grupo pop Engenheiros do Hawaii (vendeu 3 milhões de discos), mas apenas estes últimos se mantiveram vivos no mercado.

No setor regionalista, Teixeirinha não foi substituído nem de perto. Simplesmente ninguém conseguiu se manter no mercado vendendo pelo menos metade do que ele vendia. Teixeirinha Filho, candidato oficial a substituir o astro, teve limitadíssima repercussão nacional, embora seu sucesso seja relativamente grande no Rio Grande do Sul. José Mendes Junior – que chegou com ousada proposta de reviver o sucesso de José Mendes – também não emplacou. Rui Biriba, Baitaca e até o insólito Paulinho Mixaria conseguiram repercussão restrita, ao passo que os grupos Tchê Barbaridade e Tchê Garotos chegaram a ensejar – sem grande alarido da imprensa – uma carreira nacional.

22 anos depois da morte de Teixeirinha, ainda pairam perguntas: quem irá alcançar um sucesso semelhante? Será que o Rio Grande do Sul ainda é capaz de produzir um outro “Rei do Disco”? O que dizer das gerações atuais, marcadas por nomes como Teixeirinha Neto e Neto Fagundes? Será que a tão criticada “tchê music” é o único caminho comercial para a música gaúcha? A Bahia deu seus fenômenos (representados por É o Tcham, entre outros), Goiás e Mato Grosso aumentam as fileiras do sertanejo-romântico e até o Pará revelou a explosão Calypso nos últimos anos. O que resta ao Rio Grande do Sul?


Quem alcançará Teixeirinha?

2 comentários:

Jaison 25 de maio de 2008 às 11:19  

Ótima recordação histórica Chico!
Teixeirinha foi um fenômeno, marcou época e jamais será superado. Estamos na era digital, portanto dificilmente acontecerá de novo.
José Mendes meso que não tivesse ocorrido a tragedia não o superaria, iria dar trabalho, mas nao superar, Gildo era um trovador, mas afeito as improvisações e ao modo de vida, era outra visão.
Parabéns Chico.

Anônimo 20 de agosto de 2008 às 09:07  

Boa pesquisa Chico parabens!!! gostaria se vc pudesse me mandar tudo sobre a vida do teixeirinha pois estou montando uma apresentação para o meu grupo sobre o teixeirinha!!!! desde ja agradeço!!!! flaviozum@bol.com.br

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